Nesses mais de 30 anos como professor, perdi as contas de quantas vezes compartilhei um pedaço da minha trajetória com meus alunos. O objetivo sempre foi o mesmo: mostrar os desafios reais, as dificuldades que passamos e, acima de tudo, o que aprendemos com elas.
Muitas vezes, os estudantes comentavam que essas histórias valiam a pena ser escritas. Por isso, decidi começar aqui uma série de pequenas crônicas sobre a minha jornada profissional. Espero que, de alguma forma, elas sirvam de inspiração para você.
Essa primeira história eu costumo contar para os meus alunos de programação que ainda enfrentam dificuldades com a velocidade de digitação, acabando por se atrasar nos conteúdos. A ideia é mostrar que a prática transforma qualquer barreira.
Tudo começou assim...
O início de tudo
Eu estava prestes a completar 14 anos e iniciar o Ensino Médio (o antigo 2º grau). Por alguma razão, meu pai pensou em um caminho diferente para mim, seu filho do meio: achou que seria interessante eu começar a trabalhar e estudar à noite.
Lembro que era final de fevereiro quando fui com ele para uma entrevista de emprego em uma agência da Caixa Econômica Federal. Fiquei lá, sentado em frente ao gerente, bem quietinho e sem falar uma palavra. O gerente entrevistava, na verdade, o meu pai.
O que ficou gravado na minha memória foi o momento em que o gerente perguntou se eu tinha curso de datilografia, pois isso era essencial para a vaga. Meu pai, prontamente e sem piscar, respondeu: SIM!
Para os mais jovens, vale a explicação: antigamente, o curso de datilografia era o equivalente a aprender a digitar hoje, mas em máquinas de escrever mecânicas. Não eram cursos rápidos e nem fáceis. Como ter uma máquina em casa era um luxo para poucos, você só praticava na escola de datilografia, o que tornava o processo lento. Para conseguir o certificado, era preciso fazer provas de velocidade, cronometradas, sem olhar para o teclado e usando todos os dedos.
Bem... o grande problema é que eu nunca tinha feito esse curso!
Ao sair da entrevista, olhei assustado para o meu pai: "E agora? O que vamos fazer se eu não sei datilografar?". Ele, com uma calma invejável, respondeu: "Vamos dar um jeito".
Dali, fomos direto ao escritório da minha tia, que é advogada, e pegamos uma máquina de escrever emprestada. Chegamos em casa, instalamos a máquina na mesa da cozinha e meu pai me deu um intensivão: ensinou como colocar o papel, regular a tabulação, dar o retorno de linha e quais dedos usar para cada fileira de teclas.
Para praticar, ele pegou o jornal Correio do Povo, abriu na primeira matéria e ordenou: "Digita isso aí!".
Não foi fácil. Cometi muitos erros, estraguei muitas folhas de papel e, às vezes, errava na última linha e precisava recomeçar tudo do zero. Resumindo: passei o final de semana inteiro digitando as matérias do jornal. Devo ter acumulado umas 30 horas de digitação intensiva. No final, eu comemorava cada texto concluído.
Na segunda-feira, lá estava eu no meu primeiro dia de trabalho. E adivinhem?
Me colocaram sentado em uma mesa com uma máquina de escrever e uma pilha enorme de documentos: eu precisava datilografar 200 envelopes de correspondência, com nome e endereço completo dos clientes, para envio postal.
Para a felicidade geral, consegui realizar a tarefa tranquilamente. Regulei a posição do texto, alimentei os envelopes e datilografei tudo certinho. Ninguém na agência jamais desconfiou que eu não tinha o tal curso.
Se durante o final de semana senti raiva e cansaço por ter que abdicar do meu descanso para aprender aquilo à força, naquele momento compreendi a grande lição do meu pai: Esteja preparado para as oportunidades! Sempre há tempo para aprender.
E foi assim que tudo começou. Carteira assinada aos 14 anos, na função de Estafeta.